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Cruzada

Origen: Diversos países

Os cruzamentos entre raças ovinas leiteiras especializadas e raças adaptadas às condições locais podem contribuir para a formação de animais produtivos, funcionais e mais adequados aos diferentes sistemas de criação. Essa estratégia busca combinar maior produção de leite, persistência de lactação e características de ordenha com rusticidade, fertilidade, adaptação ambiental e qualidade do leite.

No Brasil e em outros países da América do Sul, cruzamentos como Lacaune × Santa Inês, Lacaune × Crioula e East Friesian × Corriedale já foram avaliados com resultados promissores.

Cruzada

Cruzamentos com aptidão para produção de leite ovino

A produção de leite ovino não está limitada apenas aos rebanhos formados por raças leiteiras puras. O cruzamento entre raças especializadas para produção de leite e raças adaptadas às condições locais pode ser uma importante estratégia para formar animais produtivos, funcionais e adequados aos diferentes sistemas de criação.

O objetivo desses cruzamentos é aproveitar a complementaridade entre as raças. Enquanto raças leiteiras especializadas, como Lacaune e East Friesian, contribuem principalmente com maior capacidade de produção, persistência de lactação e características relacionadas à ordenha, raças locais ou de múltipla aptidão podem contribuir com características como rusticidade, adaptação ao clima e ao sistema de criação, fertilidade, capacidade materna e qualidade do leite. Além disso, animais cruzados podem se beneficiar da heterose, também conhecida como vigor híbrido. Estudos internacionais demonstram efeitos positivos da heterose sobre características de produção de leite, gordura e proteína.

Lacaune × Santa Inês

Um dos cruzamentos com resultados científicos já avaliados no Brasil é o Lacaune × Santa Inês. Em estudo realizado com ovelhas Santa Inês, ½ Lacaune × ½ Santa Inês e ¾ Lacaune × ¼ Santa Inês, as ovelhas meio-sangue apresentaram produção média de aproximadamente 1,55 litro de leite/dia, enquanto as ¾ Lacaune produziram aproximadamente 1,34 litro/dia e as Santa Inês cerca de ,01 litro/dia, nas condições avaliadas.

Os resultados demonstraram que a introdução da genética Lacaune aumentou o potencial leiteiro e que, naquele sistema, as fêmeas ½ Lacaune × ½ Santa Inês apresentaram a maior produção entre os grupos estudados. Isso também mostra que aumentar simplesmente a proporção de uma raça leiteira não garante, por si só, maior desempenho: ambiente, nutrição, manejo, adaptação e interação entre as raças também precisam ser considerados.

Lacaune × Crioula

Outro cruzamento de grande interesse para as condições brasileiras é o Lacaune × Crioula. Um estudo realizado no Rio Grande do Sul e publicado em 2026 avaliou ovelhas Lacaune, Crioula e suas filhas F1 em condições do Bioma Pampa.

As ovelhas Lacaune produziram em média 1.076 g de leite/dia, enquanto as F1 Lacaune × Crioula produziram 932 g/dia e as Crioulas 358 g/dia. Até a 14ª semana de lactação, as fêmeas cruzadas apresentaram produção semelhante à das Lacaune. Além disso, o leite das F1 apresentou composição intermediária e maior concentração de sólidos em relação às Lacaune, característica de interesse principalmente para a fabricação de queijos.

Os autores consideraram o cruzamento uma alternativa promissora para sistemas leiteiros do Sul do Brasil, combinando a capacidade produtiva da Lacaune com características da Crioula adaptada às condições do Pampa.

East Friesian × Corriedale

Na América do Sul, também existem experiências com o cruzamento East Friesian × Corriedale. No Uruguai, um estudo conduzido durante cinco anos comparou ovelhas Corriedale com fêmeas F1 resultantes do cruzamento com East Friesian em sistema baseado em pastagens.

Durante o período exclusivo de ordenha, as fêmeas F1 produziram aproximadamente 35% mais leite que as Corriedale, apresentando produção diária média de cerca de 0,73 litro, frente a 0,54 litro das Corriedale. As cruzadas também apresentaram maior prolificidade e melhor desempenho dos cordeiros.

Esse exemplo demonstra como a genética de uma raça leiteira especializada pode ser utilizada para aumentar a aptidão leiteira de populações tradicionais, mantendo parte das características de adaptação da raça materna.

Outras possibilidades de cruzamento

Em diferentes países, a estratégia de utilizar uma raça leiteira especializada sobre populações locais tem sido empregada para aumentar a produção de leite. A Lacaune, por exemplo, já foi utilizada em cruzamentos com raças como Tsigai e Improved Wallachian. Um estudo envolvendo mais de 23 mil lactações encontrou efeito positivo da heterose sobre a produção de leite, gordura e proteína.

A própria Assaf representa um exemplo histórico de como um programa de cruzamento e seleção pode, ao longo das gerações, resultar em uma população geneticamente estabilizada. A raça foi desenvolvida em Israel a partir das raças Awassi e Milchschaf, utilizando aproximadamente 5/8 de genética Awassi e 3/8 Milchschaf. Posteriormente, após seleção e consolidação de suas características, passou a ser reconhecida como raça.

Cruzar não significa apenas produzir mais leite

A escolha de um cruzamento para produção leiteira deve considerar muito mais do que apenas o volume de leite. Um programa de melhoramento bem planejado deve avaliar conjuntamente características como produção e persistência da lactação, gordura e proteína do leite, conformação do úbere e dos tetos, facilidade de ordenha, fertilidade, prolificidade, longevidade, resistência a doenças, adaptação ao clima, capacidade de aproveitar pastagens e desempenho dos cordeiros.

Por esse motivo, não existe um percentual racial ou cruzamento ideal para todas as propriedades. O melhor genótipo depende do ambiente, do nível nutricional, do sistema de ordenha, da disponibilidade de alimento, do objetivo industrial do leite e das condições de manejo de cada propriedade.

Para a ovinocultura leiteira brasileira, os cruzamentos representam uma ferramenta especialmente interessante. O país possui raças e populações ovinas bem adaptadas a diferentes ambientes e, ao mesmo tempo, dispõe de genética especializada para produção leiteira. A utilização planejada dessas características pode permitir o desenvolvimento de rebanhos leiteiros adaptados às condições brasileiras, produtivos e economicamente eficientes, sem necessariamente depender exclusivamente da utilização de animais puros.

O cruzamento deve, entretanto, fazer parte de um programa de melhoramento definido, com registro de genealogia, controle leiteiro, avaliação de composição do leite, reprodução, saúde do úbere e desempenho das filhas. Sem seleção e acompanhamento dos resultados, o simples cruzamento de raças não garante progresso genético ao longo das gerações.

FONTES:

https://www.scielo.br/j/abmvz/a/j584k7v6LrdvZc99MnRRP4r/?format=html&lang=pt&ilang=pt_BR

https://link.springer.com/article/10.1007/s11250-026-05208-1?utm_s

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/092144889500727X

https://www.agriculturejournals.cz/pdfs/cjs/2023/10/01.pdf