Lacaune
Origin: França
É uma das principais raças ovinas leiteiras do mundo. Destaca-se pelo bom potencial de produção, pela qualidade dos sólidos do leite e pela adaptação à ordenha mecânica.
No Brasil, sua primeira introdução documentada ocorreu em 1984, no município de Extrema, em Minas Gerais. Em 1992, a Cabanha Dedo Verde, da família Aguinsky, no Rio Grande do Sul, marcou o início da expansão comercial da raça na ovinocultura leiteira nacional.
Desde então, décadas de seleção genética vêm aprimorando características como produção de leite, conformação e funcionalidade do úbere, composição do leite e resistência a problemas sanitários. Atualmente, a Lacaune é uma importante referência para sistemas especializados na produção de leite e derivados ovinos no Brasil e no mundo.

A Lacaune é uma das raças ovinas leiteiras de maior importância no mundo e possui uma história fortemente ligada à produção de leite, à fabricação de queijos e ao desenvolvimento de programas de melhoramento genético. De origem francesa, a raça ganhou espaço também no Brasil e teve papel fundamental no desenvolvimento da ovinocultura leiteira nacional.
Origem da raça
A raça Lacaune é originária do sul da França e recebeu seu nome dos Montes de Lacaune, na região do Tarn. Seu berço está localizado principalmente nos departamentos de Aveyron e Tarn, no tradicional território produtor de leite destinado à fabricação do queijo Roquefort.
Segundo a UPRA Lacaune, organismo oficial francês responsável pela seleção da raça, a Lacaune foi formada a partir de diferentes populações ovinas locais e foi oficialmente reconhecida como raça em 1893.
Ao longo das décadas, o intenso trabalho de seleção genética resultou no desenvolvimento de populações especializadas, especialmente a Lacaune Lait, direcionada à produção de leite, e a Lacaune Viande, voltada à produção de carne.
Aptidão produtiva
No Brasil, a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos – ARCO classifica a Lacaune como uma raça de aptidões mistas, explorada tanto para a produção de leite e seus derivados quanto para a produção de carne proveniente dos cordeiros.
Uma das características de grande importância para os sistemas leiteiros é sua adaptação à ordenha mecânica. A conformação do úbere e dos tetos também recebe atenção no padrão racial, justamente pela relação direta com a funcionalidade da ordenha.
Características raciais
De acordo com o padrão racial estabelecido pela ARCO, a Lacaune apresenta corpo grande e comprido, dorso reto e largo, membros proporcionais e bons aprumos.
A cabeça é fina, com perfil reto ou levemente convexo, orelhas compridas e implantação lateral. Machos e fêmeas são naturalmente mochos, ou seja, não apresentam chifres.
A pelagem é predominantemente branca e o velo possui extensão relativamente reduzida, deixando descobertas regiões como cabeça, ventre e parte dos membros.
As fêmeas adultas apresentam, segundo o padrão brasileiro, peso médio entre 70 e 80 kg, enquanto os machos adultos apresentam aproximadamente 95 a 100 kg. A altura na cernelha situa-se entre 70 e 80 cm.
Produção de leite
A Lacaune leiteira passou por décadas de seleção direcionada à produtividade e às características funcionais relacionadas à produção.
Dados divulgados pela UPRA Lacaune para a campanha de 2023 mostram que os rebanhos pertencentes à base francesa de seleção produziram, em média, 357 litros de leite em 177 dias de lactação, com aproximadamente 75 g/L de gordura e 56 g/L de proteína.
Esses valores representam animais inseridos em rebanhos franceses submetidos a controle de desempenho e seleção genética e, portanto, não devem ser interpretados como uma produção obrigatoriamente esperada em todos os sistemas de criação. O desempenho individual depende de fatores como genética, alimentação, manejo, ambiente, estágio da lactação e condição sanitária.
A Lacaune no Brasil
A história da Lacaune no Brasil possui dois momentos importantes.
A primeira introdução documentada da raça ocorreu em 1984. Um artigo científico publicado em 1989 pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo relata explicitamente a recente introdução da Lacaune no Brasil naquele ano e acompanha, entre 1984 e 1986, um rebanho localizado em Extrema, Minas Gerais.
Outra fonte acadêmica, baseada em dados da Associação dos Criadores de Caprinos e Ovinos de Minas Gerais, registra que essa introdução ocorreu com a importação da França de 21 animais Lacaune destinados a Extrema-MG. A documentação consultada, entretanto, não permite atribuir com segurança essa primeira importação de 1984 a uma pessoa específica.
O marco da produção comercial de leite ovino
Um segundo momento decisivo ocorreu em 1992, no Rio Grande do Sul.
No início da década de 1990, Paulo Aguinsky, proprietário da Cabanha Dedo Verde, de Viamão (RS), conheceu a Lacaune leiteira durante uma viagem à França. Na ocasião, visitou propriedades da região de Roquefort, conheceu sistemas de produção e ordenha mecanizada e decidiu introduzir a genética em sua propriedade.
Segundo estudo publicado na Revista Brasileira de Gestão e Desenvolvimento Regional, baseado em visita, questionário e entrevistas realizadas na própria Cabanha Dedo Verde, em 1992 foram importadas diretamente da França 10 matrizes e 2 reprodutores Lacaune. No ano seguinte, foram importadas outras 50 fêmeas.
Esse movimento é considerado um importante marco para o desenvolvimento comercial da ovinocultura leiteira brasileira, contribuindo para a multiplicação da genética Lacaune e para a expansão da produção especializada de leite ovino no país.
Assim, é importante distinguir os dois acontecimentos: 1984 marca a primeira introdução documentada da raça Lacaune no Brasil, em Extrema-MG; 1992 representa um marco da exploração comercial do leite ovino com a Lacaune, especialmente a partir do trabalho desenvolvido pela família Aguinsky na Cabanha Dedo Verde, em Viamão-RS.
Desempenho em condições brasileiras
Pesquisas realizadas no Brasil também demonstram o potencial produtivo da raça.
Em estudo conduzido em Guatambu, Santa Catarina, pesquisadores da UDESC e da USP avaliaram 46 ovelhas Lacaune mantidas em sistema de pastejo rotacionado. Durante o período experimental, as Lacaune apresentaram produção média de 1,67 kg de leite por dia, além de produção superior de gordura e proteína em relação às East Friesian avaliadas no mesmo experimento. O leite das Lacaune apresentou, naquele estudo, aproximadamente 6,86% de gordura e 4,93% de proteína.
Outro estudo brasileiro, publicado no Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, avaliou fêmeas Santa Inês e mestiças com genética Lacaune. As ovelhas ½ Lacaune apresentaram produção média de aproximadamente 1,55 litro de leite por dia, superior ao grupo Santa Inês puro avaliado no trabalho.
Esses resultados devem ser interpretados dentro das condições específicas de cada experimento, mas demonstram o potencial da genética Lacaune também em sistemas brasileiros.
Melhoramento genético: uma das forças da raça
Grande parte da evolução da Lacaune está relacionada ao seu estruturado programa de melhoramento genético.
Na França, o sistema de seleção utiliza controle leiteiro, avaliação da composição do leite, características de úbere, acompanhamento sanitário, avaliação de reprodutores, inseminação artificial e informações genéticas.
Atualmente, o índice de seleção da Lacaune leiteira considera não apenas a quantidade produzida, mas também características como teor de gordura, teor de proteína, concentração de células somáticas e morfologia da glândula mamária.
Em 2015, a seleção genômica foi incorporada oficialmente ao programa Lacaune Lait. Segundo a UPRA, foi a primeira implantação desse tipo de seleção na espécie ovina, possibilitando estimar mais precocemente o valor genético dos jovens reprodutores.
Lacaune: genética construída ao longo de gerações
A Lacaune representa o resultado de décadas de seleção, controle produtivo e aprimoramento genético. A combinação entre capacidade leiteira, funcionalidade de úbere, adaptação à ordenha mecânica e produção de cordeiros ajudou a consolidar a raça como uma das principais referências da ovinocultura leiteira internacional.
O avanço da seleção da raça Lacaune também pode ser observado nos rebanhos brasileiros. Um exemplo é a ovelha nº 21116, da Casa Bianchi, que, em controle leiteiro realizado em 16 de julho de 2025, aos 46 dias de lactação, registrou produção de 8,2 litros de leite em um dia. Na lactação anterior, essa mesma matriz apresentou média de 3,06 litros/dia, permanecendo 282 dias em lactação e totalizando 862 litros de leite. O desempenho individual deste animal demonstra o potencial que pode ser alcançado por meio da combinação entre genética, seleção criteriosa, manejo, nutrição e acompanhamento produtivo. Resultados como esse reforçam a importância do controle leiteiro e do registro de desempenho como ferramentas para identificar animais superiores e direcionar o melhoramento dos rebanhos Lacaune no Brasil.
Mais do que elevada produção, a trajetória da Lacaune demonstra a importância da seleção genética, do controle de desempenho e do planejamento dos sistemas de produção para o desenvolvimento sustentável da ovinocultura leiteira.
Fontes técnicas utilizadas
ARCO – Associação Brasileira de Criadores de Ovinos: padrão racial oficial da raça Lacaune no Brasil.
UPRA Lacaune – Organisme de Sélection des Races de Brebis Lacaune: origem, desempenho produtivo e programa oficial de melhoramento genético da raça na França.
Garcia, M.; Ferreira, C.E. (1989):Desempenho ponderal de ovinos da raça Lacaune criados no Brasil, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP.
Chaves et al. (2010): estudo de caso sobre a Cabanha Dedo Verde e o desenvolvimento da exploração comercial de ovinos leiteiros no Brasil.
Ticiani et al.:estudo sobre produção e composição do leite de Lacaune e East Friesian em Santa Catarina, publicado na Ciência Rural.
Ferreira et al. (2011): estudo sobre produção de leite de ovelhas Santa Inês e mestiças Lacaune Santa Inês, publicado no Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia.



